quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Breve Manifesto Sociautista

 A montagem do andaime social que edifica a história de um povo perpassa costumes e tradições, organizando socialmente formas e conteúdos humanos, desde a pré-história até os dias de hoje.
Os fenômenos lingüísticos sempre estiveram presentes, mesmo que de forma ingênua e primitiva.
A natureza laboratorial de nossa raça é construída de imagens e sons. Nossos fundamentos existenciais são transparentes e sonoros.
Em um cenário natural diríamos que os conceitos racionais são aprendidos e repetidos.
Entendemos o mundo a partir da fala e neste universo conceituado surge o que chamamos de cultura.
Neste contexto sociológico, o homem brasileiro desaculturou-se. Fast foods, coffee breaks, happy hours e feed backs estão cada vez mais presentes em nosso vocabulário.
Sem que percebamos, nossa identidade ameríndia, latino americana se deteriora e nossa capacidade humana, construtora e transformadora, esvazia-se.
Este texto tem a intenção de resgatar as Marias, Joãos, Josés, Pedros, Sebastiões, enfim, a nossa raiz.
É lógico que não há aqui nenhum sentido discriminatório, pois neste ambiente miscigenado brasileiro as Steffanes, Ketherines, Christines e Charlottes serão sempre muito bem-vindas.
Brasilidade no sentido mais amplo da palavra, muito além das vogais e consoantes.
Simultaneamente ao que chamamos de descobrimento do Brasil, a Europa, com que em um caldeirão, fervia em transformações. O Renascimento rompia de vez com as estruturas medievais e homens como Leonardo da Vinci e Michelangelo começavam a delinear os novos rumos da arquitetura, ciência, arte, engenharia, botânica, enfim, chegava a Idade Moderna.
Neste ambiente contemporâneo “fomos descobertos”.
Vindo de lugares distantes e com sonhos programados, aventureiros desorganizados avistam e desembarcam em terra segura, de gente colorida e hospitaleira.
- Pronto, daremos o nome, pois somos os “donos”. Ilha de Vera Cruz, não. Terra de Santa Cruz, também não. Vamos chamar de Brasil.
 Neste contexto impositivo e colonial surgimos. Índios e portugueses, depois negros (preconceituosamente chamados de izoneiros), mamelucos, mulatos,  espanhóis,  libaneses, forasteiros, italianos, alemães, japoneses, enfim brasileiros. Nação diferenciada, porém despreparada; a sordidez camuflada e infelizmente enraizada no que vinham a ser os porões  negreiros.
Em um ambiente de constatação, este ensaio visa apenas alertar-nos a um fato de extrema importância já percebido no começo do séc. XX por um grande homem, médico psiquiatra, fundador da Psicanálise: Sigmund Freud.
Ele, através de seus estudos, percebe que a cura do homem se dá através da palavra.
Sendo assim, como curar-nos enquanto nação, se a nossa expressividade, palavras, gestos, símbolos e signos não tem ressonância?
Não temos direito a linguagem, nosso discurso é  desprezado e nossa liberdade é condicionada.
Toda expressão humana é libertadora e a ferramenta indispensável para que nos tornemos seres culturais com uma estrutura espacial e temporal sólida é reprimida!
Sem direito a comunicação, gritamos em nosso silêncio. Nascemos e nos criamos brasileiros autistas; enfim, pessoas com um mundo interior sincrético e rico, porém sem acesso ao mundo exterior. Como diz o ditado: “brasileiro para inglês ver”.
Além das condições precárias de vida, corremos um sério risco de ao nos desaculturarmos invertermos e desestabilizarmos o papel do Estado Social.
Sociautistas no sentido subjetivo da palavra, em que o social nos levará quem sabe a uma reflexão conjunta, empírica e transformadora, onde a constatação desta realidade fará de nós quem nós realmente somos: seres pensantes e lingüísticos, autores e delineadores de nosso destino.
 Segundo e seguindo a máxima de  Descartes “penso logo existo”, o povo brasileiro caminha quieto, sem objetivos. Plácido aos acontecimentos, pensando que só o fato de existir já basta.
Contrariando as elites burguesas deste país, este ensaio, quem sabe amanhã um manifesto, e depois de amanhã um movimento, busca palavras, sons, discursos, retóricas, poesias, artes, manifestações, enfim, tudo que este povo maravilhoso tem a dizer.
Darcy Ribeiro, antropólogo e escritor brasileiro, notoriamente envolvido com as causas indígenas, dizia: “Nós brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo”. Este documento, se atreve em dizer: “Seremos”!
Seremos quem realmente somos, pois somos o que realmente seremos. Então, se somos o que realmente seremos, que sejamos hoje, agora, neste instante, mais participativos em nossa história, pois somos nós quem a escrevemos.
Indignemo-nos pois, com as falcatruas, as diferenças sociais, os maus tratos infantis, a desatenção com os idosos, a politicagem corrupta, enfim, tudo que achemos que não está certo.
A real interpretação do que somos vem através da linguagem, e toda mudança na estrutura social dependerá única e exclusivamente da estrutura pessoal.
A lente cultural pela qual observamos o mundo só terá sentido através das intervenções e reflexões grupais, onde a estrutura lingüística será um norte facilitador.
Diagnosticar o homem por meio de sua palavra e curá-lo através de seu despertar, ou seja, do conhecimento de si mesmo.
Alguns pensadores afirmam que a construção do eu depende essencialmente do outro, seja como referência, seja como negação.
Apoiado nesta idéia, esta proposta constata também que só haverá a percepção do outro a partir das expressões essencialmente lingüísticas.
Prosas e versos, muito mais do que simples objetos de vocábulo, podem de forma objetiva e muitas vezes lúdica, cristalizar a nossa história e solidificar a nossa cultura.
Palavras simples podem revelar a complexidade do ser e ter quem as escute torna-o mais humano.
Humanizarmos, enquanto cidadãos, é percorrer as entranhas dos relacionamentos, desenvolvendo as emoções afetivas, inerentes à espécie humana. 
Como já dizia  Karl Marx: “Os homens fazem a história, mas apenas sob as condições que lhes são dadas”.
Essas condições estão em nossas mãos, façamos a diferença!
Tolstói nos diz também: “Queres ser universal? Canta a tua aldeia!”
Portanto, brasileiros e brasileiras, gente bonita que gosta da paz, conscientizemo-nos em nossas relações.
Somos mais fortes unidos, pois um mais um neste caso, é mais que dois.
Sociautistas por constatação e não por opção. No entanto, mesmo que pareçamos estar na contra mão dos grandes movimentos, pois “somos o que não queremos ser”, estamos na verdade querendo ser o que realmente somos.
Nossa dignidade é construída a partir de nossa identidade cultural. Só seremos respeitados verdadeiramente quando tomarmos consciência de nós mesmos.
Quem somos? O que queremos? Quais são os nossos direitos?
Tudo isso está na linguagem, na expressão!
Não deixemos que as nossas tradições sejam mais fortes do que nós, pois elas só existem porque as criamos.
Carnaval, samba, mulatas, futebol e caipirinha não deveriam ser fantasias turísticas, e sim resultados de uma história muito mais profunda, homérica e relevante.
Por possuirmos a linguagem, mesmo que frágeis, dominamos os ares, os campos e os mares.
O homem, em sua insignificância, é poderoso. Temos a força em nossas mãos e a grandeza em nossa boca.
Falemos então a nossa verdade, clara e mansamente, não deixando com isso de escutar a verdade dos outros, pois eles também tem a sua própria história.
Há uma grande diferença entre ouvir e escutar, ver e enxergar. Muitas vezes ouvimos, mas não escutamos. Vemos, mas não enxergamos.
O dom da fala é o que nos diferencia dos outros animais e mesmo assim, continuamos quietos, passivos aos acontecimentos, condescendentes aos desvios evolutivos de nosso continental país.
Gilberto Freyre, sociólogo, antropólogo, escritor, ensaísta e pintor brasileiro, em seu livro Casa Grande e Senzala, diz: “Todo brasileiro, mesmo o alvo de cabelo louro traz na alma, quando não na alma e no corpo(...) a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro”.
Somos isso mesmo: a mistura de muitas raças e o resultado de muitas coisas. Nossa paleta é quente, mas infelizmente, nossos governantes são frios.
O significado de patriota é “Aquele que ama a sua pátria e os seus símbolos.”
Simbolizemos então, a nossa pátria, pois só assim significaremos a nossa história.
Verbalizemos os nossos sentimentos. Temos o direito a isso.
Nosso hino é erudito, mas  nosso coração é popular.
Heróicos brados, raios fúlgidos e vívidos, impávidos colossos, fulguras, florão, garridas e Lábaros são maneiras de dizer: “Eu te amo Brasil.” 
Contra a corrupção generalizada, os escândalos políticos, a arrogância burguesa, o descaso social, cultural e ambiental, o jeitinho brasileiro; enfim, a favor de uma nova ordem, um jeito mais ético e principalmente íntegro de ser.
Como diz Oswald de Andrade em seu “Manifesto Antropofágico”: Tupi, or not Tupi that is the question.


Pedro Guilherme

Um comentário:

  1. Não conhecia este lado filosófico do Pedro Guilherme... acho que posso fazer parte deste movimento sociautista.

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